[extra tópico] A violência, às vezes, está muito perto
São Paulo é uma cidade tranquila tanto quanto pode uma cidade do seu tamanho (tá, Nova Iorque desmente isso). Mas você anda sossegado pelas ruas. Mas às vezes você sente a violência urbana muito perto. A violência do trânsito, dos assaltos, da intolerância. O carro da advogada morta por culpa de um dono de Porche que se acha no direito de acelerar 150km/h, numa rua estreita do Itaim, foi parar num poste onde eu costumava fumar, quando a agência em que eu trabalho ficava nesse bairro. Alguns dias atrás foi o dono da Lorenzetti, atropelado na Av. Sumaré, tentando manter sua paixão pelo ciclismo, mesmo aos 68 anos. Por coincidência passei hoje pela passarela Marcelo Fromer (dos Titãs), na Av. Juscelino Kubitschek, construída depois que ele foi atropelado. São exemplos conhecidos, imagina a quantidade que morre em pontos de ônibus e cruzamentos. A violência urbana mais terrível no Brasil é essa, a do trânsito. E ela nos dá uma pista do porquê de nosso país ter tantos problemas. Um dos maiores estudiosos da nossa cultura, Roberto Da Matta, tem estudado o estilo de vida do brasileiro pelo seu comportamento no trânsito. Ele deu uma entrevista para a revista Trip falando disso (http://migre.me/5emb0). Mas o site da revista Época tem um artigo excepcional da jornalista Eliane Brum, que também diz muito sobre esses acontecimentos. Diz muito sobre nós e nossas dificuldades, é libertador (http://migre.me/5em9W). Vale, no mínimo, por 15 seções de psicanálise. Tem outro texto que faz perguntas muito pertinentes a nós brasileiros, do correspondente do El Pais no Brasil, Juan Arias (http://migre.me/5embp).
Alguns trechos da entrevista do Roberto Da Matta para a revista Trip:
“Para tentar compreender a epidemia de 40 mil mortes no trânsito por ano (o que nos torna o quinto pior país do mundo nesse quesito), o antropólogo foi até as raízes sociais do Brasil. Concluiu:”
- ”(…) nosso terrível comportamento nas ruas é fruto de uma sociedade que ainda não aprendeu a ser igualitária e a se libertar de seus traços aristocráticos.”
- ”(…) uma elite que sempre rechaçou o transporte coletivo e que adotou o carro como símbolo de superioridade social.”
- ”(…) crença irracional em uma proteção divina que compensaria os riscos corridos ao volante.”
- ”(…) mentalidade hierárquica ainda regida pela lógica do “Você sabe com quem está falando?”, segundo a qual obedecer a lei é sintoma de inferioridade.”
- “No Brasil obedecer à lei é visto como babaquice, como sintoma de inferioridade”
A partir desses 3 textos podemos concluir que a razão dos problemas do Brasil não são os políticos, somos nós. Desconhecemos tanto o conceito de público, básico para qualquer tentativa de civilização, que agimos como se os políticos fossem extraterrestres que caíram do céu. Não são. Eles saíram de nós.